Arte é passagem, nunca barreira

Arte é passagem, nunca barreira. Ela é uma porta aberta e sem chaves, que te convida a entrar e, uma vez que você passa por ela, ela também te atravessa abrindo outros caminhos, possibilidades e reflexões infinitas. Arte eterniza momentos. Quando ela acontece você esquece por nanosegundos o que te separa de quem não vibra na mesma frequência que você.

Foto: Tiphanie Constantin - Morro da Providência, 2017

Às vezes pelos ouvidos, ora por dança, outras por imagem, por texto, outras cênicas e, por vezes, aquelas que juntam tudo em um único encontro. O mecanismo em que a arte torna-se barreira (às vezes invisível) não é a arte em si, mas alguns mercados que envolvem a exibição de uma obra, concerto, exposição, espetáculo etc.



As artes ditas "urbanas", "de rua", e que hoje em dia prefiro chamar de públicas, são para mim uma das experiências artísticas mais contemporâneas e potentes que existem, pois (ainda) impedem qualquer tipo de mecanismo barrar o encontro entre sociedade e objeto artístico. Pensa comigo: você não precisa pagar entrada, não tem horário agendado, plano de dados, rede social, algoritmos, followers, diplomas, vistos, passaporte e muito menos vestimentas sugeridas.


Recentemente presenciei uma senhora analfabeta encantanda com um #lambelambe todo em texto. Já estive com crianças, jovens e adultos egípcios, libaneses e sírios vibrando juntos com cola e papel, e a gente só se comunicava através disso mermo: cola e papel. Incontáveis vezes presenciei gestos, olhares e emoções de pessoas observando concreto ressignificado em arte. A intervenção pública quebra qualquer muro e transforma avenidas, ruas, praças, becos, portões, portas e corpos em locais de amplitude, convivência e expressão. Ela ocupa e faz morada.



Parte do jogo que eu jogo é o equilíbrio entre público e privado. Sei bem que o mundo que vivemos ainda é esse: de ter para ser. Sabendo disso danço a música de dar e receber, de dividir pra multiplicar, sem nunca esquecer o ritmo que me conduz: essa sucessão de tempos fortes e fracos que se alterna pra gente nunca esquecer de estar em movimento para gerar movimentos.


Nenhuma arte deveria promover barreiras, embora existam barreiras que promovam arte.