111: sento e onze

Atualizado: 28 de dez. de 2021

Alberto Pereira faz homenagem ao líder da Revolta da Chibata, João Cândido, e seus companheiros de luta, André Avelino e Manuel Gregório do Nascimento

Texto: Aborda



João Cândido - Reprodução / Prefeitura de São João de Meriti

No dia seis de dezembro deste ano, 2021, o artista Alberto Pereira fez o lambe “111: sento e onze”, localizado na praça Marechal Âncora, no centro da cidade do Rio de Janeiro. A arte foi uma homenagem aos 111 anos da Revolta da Chibata e os 52 anos da morte do almirante João Cândido, líder da revolução que faleceu no dia seis de dezembro de 1969.


Augusto Malta - Revolta Naval (Chibata). André Avelino e Gregório do Nascimento, marinheiros amotinados. Rio de Janeiro, 26/11/1910 - Fotografia_papel, gelatina prata, 17 x 23 cm - Fundação Museu da Imagem e do Som – FMIS RJ

O lambe lambe de 11×9 metros tem a imagem dos três marinheiros que estiveram a frente levante: João Cândido Felisberto (centro), André Avelino (esquerda) e Manuel Gregório do Nascimento (direita). Na época, a Marinha brasileira punia os marujos que violassem as regras da corporação com chibatadas. A prática era aplicada somente aos que ocupavam postos mais baixos, em sua maioria pessoas negras e mestiças.



foto: Gabriela Azevedo

foto: Cochi Guimarães

foto: Gabriela Azevedo

Em 22 de novembro de 1910 os marinheiros tomaram o controle de quatro embarcações da Marinha brasileira: Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro. Eles exigiam o fim dos castigos físicos, caso contrário, a capital, que naquele momento era localizada no Rio de Janeiro, seria bombardeada. Hermes da Fonseca, presidente do Brasil (1910-1914), aceitou os termos em 26 de novembro, pondo fim aos castigos físicos com a promessa de anistia aos envolvidos na revolta.

No entanto, dois dias após o fim do ato revolucionário, o governo decretou a suspensão de cerca de mil marinheiros, que estavam na Revolta Da Chibata. Hoje, muitos historiadores consideram o motim uma indignação contra a desigualdade social e racial existente tanto na Marinha como na sociedade como um todo.


Após ser expulso da instituição, João Cândido passou a vender peixes na região da Praça XV e Marechal Âncora. Por isso, a arte foi realizada neste local. Alberto Pereira explica que o lambe foi colado no chão para mostrar como, literalmente, os brasileiros ainda passam por cima da própria história.



foto: Cochi Guimarães

Alberto com os assistentes Pietra e Silas, fundadores do coletivo bxd lambe. Foto: Gabriela Azevedo

A colagem durou, ao todo, 12h. foto: Cochi Guimarães

A obra “111: sento e onze” fez parte de uma das ações do novembro negro da Coordenadoria Executiva de Promoção da Igualdade Racial do Rio de Janeiro (CEPIR Rio) e Secretaria Municipal de Governo e Integridade Pública (Segovi). O lambe ficará em exposição na Praça Marechal Âncora até o dia seis de janeiro de 2022. Após a data, uma nova estátua será inaugurada, no mesmo local, em homanagem ao Almirante Negro, João Cândido.


Porém a obra do Alberto nascerá novamente de uma outra forma. O papel que foi utilizado no lambe será reciclado e dará origem a 111 prints exclusivos que terão a arte do lambe “111: sento e onze”.


O artista ressalta que “A matéria não é eterna, mas o seu atravessamento em relação a quem passa por ela na rua já é o que importa, na real”.




foto: Cochi Guimarães